Você já percebeu que algumas expressões são incorporadas ao nosso vocabulário no dia a dia e, quando nos damos conta, já as estamos usando?
Por exemplo, quando queremos dizer que a insistência leva ao sucesso, às vezes usamos “Água mole em pedra dura...”, ou quando queremos dizer que cada pessoa deve cuidar de seus próprios assuntos, dizemos “Cada macaco no seu galho”.
Outras expressões não desaparecerão “nem que a vaca tussa”, pois já criaram raízes em nosso vernáculo.
Uma expressão tem me chamado a atenção: “Passar pano”. Já ouviu essa expressão?
Vamos às origens…
Passar Pano: Origem e Significado
A expressão “passar pano” tem origem no ato literal de limpar algo com um pano.
No entanto, seu significado evoluiu para o sentido figurado de encobrir, minimizar ou defender algo negativo.
Há registros de que, no período escravista, os senhores passavam um pano úmido nas costas dos escravizados para remover a sujeira e o suor, disfarçando as condições em que viviam. Além disso, a ideia de “passar pano“ também remete ao ato de disfarçar imperfeições em serviços malfeitos, reforçando seu uso no sentido de acobertar ou amenizar falhas.
Significado e Uso
“Passar pano” é sinônimo de defender, omitir ou minimizar erros e atitudes negativas, seja desviando o foco da crítica, citando outro fato para relativizar a situação ou tentando proteger alguém de julgamentos.
Exemplos de Uso:
✔ “Eu sei que ele falou mal de mim. Você está passando pano para ele!“ ✔ “Não podemos passar pano para situações de assédio.” ✔ “O governo errou, mas sempre aparece alguém para passar pano, citando escândalos antigos.” ✔ “Maria nunca errou, e se errar, eu passo pano.”
Popularidade da Expressão
Embora não seja recente, a expressão ganhou força entre os jovens e passou a figurar em dicionários informais, sendo comparada a “varrer para debaixo do tapete”. Seu uso é frequente em debates políticos, sociais e no dia a dia, para descrever a tentativa de absolver alguém de críticas ou esconder problemas.
O escritor sempre coloca um pouco de si em suas histórias, sejam experiências pessoais ou no modo como histórias de terceiros influenciaram sua vida.
Neste post faremos uma breve análise do conto A Pequena Sereia, original de 1837, adaptado posteriormente para o cinema pelos estúdios Walt Disney.
A adaptação de A Pequena Sereia pela Disney, lançada em 1989, marcou um ponto de virada significativo na indústria da animação. Este filme não apenas revitalizou a animação como forma de entretenimento, mas também se estabeleceu como um ícone cultural duradouro.
As músicas e personagens apresentados na obra da Disney tornaram-se parte integrante da cultura popular, evidenciando a habilidade da empresa em criar narrativas que ressoam com o público de todas as idades.
A história de Ariel, com sua busca por identidade e amor verdadeiro, representa temas universais que continuam a atrair novas gerações, estabelecendo um profundo impacto na imaginação coletiva.
Como as experiências do autor e do adaptador influenciaram o modo como contam a mesma história? Vejamos.
Resumo da versão Disney de A Pequena Sereia
Na versão dos Estúdios Disney, o amor romântico é o foco central da narrativa.
A Pequena Sereia é uma adaptação captura a essência de uma história encantadora, centrada na jovem sereia Ariel.
Desde o início, Ariel é apresentada como uma jovem curiosa e sonhadora, insatisfeita com sua vida no reino subaquático de Atlântida. Ela anseia por entender o mundo humano e sonha em se tornar parte dele, uma ambição que a leva a explorar os destroços de navios naufragados.
Esse desejo de liberdade e descoberta é um aspecto central da narrativa, pois representa a busca por identidade e pertencimento, temas universais que ressoam com muitos.
O amor floresce quando Ariel vê e salva de um naufrágio, o príncipe Eric, um humano que se torna a razão pela qual ela deseja transformar-se.
Em um momento decisivo, Ariel faz um pacto com a maligna bruxa do mar, Úrsula.
Sacrifícios e Final Feliz
Este acordo, que a transforma em humana por um período limitado, também a priva de sua voz, simbolizando as dificuldades e sacrifícios que podem surgir na busca pelos sonhos.
Este elemento da história oferece uma visão leve, mas profunda, sobre os desafios do amor verdadeiro e a importância da comunicação.
À medida que a narrativa se desenrola, Ariel é acompanhada por uma variedade de amigos leais, incluindo o peixe Linguado e o crustáceo Sebastião, que não apenas oferecem suporte, mas também humor à trama.
Os encontros e desencontros com Úrsula introduzem tensão à história, mas a amizade e o amor triunfam.
Em última análise, a versão da Disney culmina em uma resolução feliz, onde Ariel consegue conquistar seu sonho de ser humana, sublinhando que o amor e a amizade superam todos os obstáculos.
Essa adaptação oferece um toque otimista e esperançoso, deixando uma mensagem positiva para o público de todas as idades.
Resumo da versão original de A Pequena Sereia
Por outro lado, a versão original de Hans Christian Andersen, publicada em 1837, oferece uma abordagem mais sombria e filosófica da história.
A sereia, em sua busca pela alma e pela humanização, confronta questões existenciais profundas, como a perda e a dor que podem acompanhar o amor.
A versão original do conto A Pequena Sereia, escrita por Hans Christian Andersen, narra a história de uma jovem sereia que habita as profundas águas do oceano.
Desde pequena, a sereia é fascinada pelo mundo humano, em especial por um príncipe que avista e salva da morte, afogamento devido por causa do naufrágio, no dia de sua festa de aniversário.
A atração e o amor que sente por ele a levam a tomar uma decisão drástica, buscando a transformação em humana.
Para isso, ela faz um pacto com a temida bruxa do mar, que oferece pernas em troca de sua cauda, mas a um preço doloroso: a sereia deve abrir mão de sua voz.
O amor que a sereia nutre pelo príncipe é imenso, mas suas escolhas são repletas de sacrifícios.
O sacerifício e a perda
Adaptar-se ao mundo dos humanos traz-lhe não apenas a dor de não poder se expressar verbalmente, mas também a dor física, pois cada passo que dá é como caminhar sobre lâminas afiadas.
Ao longo da narrativa, Andersen explora a dualidade da busca pelo amor verdadeiro e os sacrifícios que isso demanda, revelando uma realidade onde a felicidade nem sempre é garantida.
Apesar de seus esforços para conquistar o coração do príncipe, ele acaba se apaixonando por outra mulher, levando a sereia a um estado de desespero.
O desfecho se torna ainda mais sombrio quando, ao perceber que seu amor é inalcançável, ela se depara com uma escolha final:
A bruxa do mar sugere que para recuperar a sua vida ela deve matar o príncipe e deixar seu sangue pingar aos seus pés para que ela volte a ser sereia ou transformar-se em espuma do mar em vez de se tornar uma mulher sem amor.
Ao ver a alegria do Príncipe com a amada, ela escolhe se transformar em espuma do mar.
Este final trágico destaca o preço elevado que pode ser exigido na busca por amor e aceitação, um tema recorrente na obra de Andersen que ressoa profundamente até os dias de hoje.
Comparação dos temas principais
De que modo cada autor inseriu um pouco de si, em especial na escrita e na adaptação deste clássico?
Enquanto a adaptação da Disney foca na busca do amor e na transformação pessoal, o conto de Andersen trata da dor e do sacrifício.
Uma análise da biografia dos personagens reais Walt Disney e Hans Christian Andersen nos ajuda a entender essa questão.
De acordo com o livro O Lado Sombrio dos Contos de Fadas, Walt Disney teve uma infância difícil, trabalhando desde menino para ajudar o pai nas despesas.
Desde muito jovem, acordava ainda de madrugada para entregar jornais, enfrentando frio intenso e longas jornadas.
Às vezes, ao encontrar brinquedos na frente das casas onde fazia uma entrega, brincava por um curto período, temendo ser pego ou denunciado por “trapacear durante o trabalho”.
Percebeu desde menino o quanto os sonhos de finais felizes permeiam a trajetória humana.
Transformou seus sonhos e desejos da infância em um projeto onde as crianças poderiam brincar e ser felizes. Criou “O Maravilhoso mundo de Walt Disney”, onde a tristeza não deveria existir (ao menos por um longo tempo!).
Hans Christian Andersen
A vida de Andersen foi solitária e marcada por amores não correspondidos.
De família pobre, conseguiu sucesso por receber apoio de alguém que reconhecia seus talentos, mas jamais se sentiu plenamente aceito na alta sociedade. Algumas de suas obras, como O Patinho Feio e A Roupa Nova do Imperador, tocam nesse tema.
Ele também escreveu A Rainha da Neve, hoje conhecido como Frozen, além de outros belos contos.
Sua vida pessoal foi solitária, marcada por amores não correspondidos.
Ele nunca se casou e há indícios de que viveu conflitos internos em relação à sua sexualidade.
Suas cartas e diários revelam paixões tanto por mulheres quanto por homens, embora nunca tenha tido um relacionamento confirmado.
Suas paixões, conflitos e perdas se refletem no modo como escreveu o conto A Pequena Sereia.
A história de A Pequena Sereia, tanto na versão da Disney quanto na de Hans Christian Andersen, é apenas um exemplo de como os autores inserem um pouco de suas experiências em suas obras.
Essas diferenças temáticas destacam como as narrativas de amor podem variar entre culturas e épocas.
A adaptação da Disney prioriza uma visão otimista, enquanto Andersen nos convida a considerar os aspectos mais sombrios da humanização.
Que tal, na próxima vez que ler um livro, uma poesia ou escutar uma música, tentar imaginar os sentimentos e as histórias que se escondem no ritmo e nas palavras?
O ser humano tem esse incrível poder de se expressar e de entender além das palavras.
And God, I know I’m One” – The house of the rising Sun
The House of the Rising Sun – Uma história
Origem da Canção
‘The House of the Rising Sun’ é uma canção tradicional folk americana cuja autoria exata permanece desconhecida.
Acredita-se que a música tenha sido transmitida oralmente através de gerações, com raízes que remontam ao início do século XX.
A natureza oral dessa tradição significa que a letra e a melodia foram modificadas ao longo do tempo, refletindo influências culturais e sociais de diferentes épocas e regiões dos Estados Unidos.
As primeiras gravações conhecidas datam de 1933, quando Clarence Ashley e Gwen Foster registraram suas versões. A interpretação de Ashley é significativa, pois ele aprendeu a música com seu avô, demonstrando sua transmissão geracional. Sua versão refletia as influências do folk e do blues, gêneros profundamente enraizados na cultura americana da época.
Contexto Cultural
O contexto dos Estados Unidos durante o surgimento da canção foi marcado por grandes mudanças e desafios.
A Grande Depressão, que assolou o país na década de 1930, impactou profundamente a vida dos americanos, e a música folk serviu como uma forma de expressão das dificuldades e aspirações da classe trabalhadora. ‘The House of the Rising Sun’ capturava essas realidades, com letras evocando histórias de perda, arrependimento e redenção.
A casa mencionada na canção é frequentemente interpretada como um bordel ou uma casa de jogo, refletindo temas de vício e decadência moral, prevalentes na sociedade da época. Assim, a canção se destacou tanto como peça musical quanto como documento cultural.
Versões e Regravações ao Longo dos Anos
Uma das primeiras interpretações notáveis foi feita por Woody Guthrie na década de 1940. Guthrie trouxe um estilo folk característico, com um arranjo simples e direto que refletia a tradição oral da música.
Musicologistas afirmam que há versões bastante antigas, possivelmente originárias da Inglaterra ou dos Estados Unidos antes da Guerra Civil. As gravações mais antigas conhecidas são de Clarence “Tom” Ashley, Doc Walsh e Gwen Foster (1932) e dos Callahan Brothers (1934), que ouviram a música de seu avô, Enoch Foster.
Texas Alexander, famoso cantor americano, gravou ‘Rising Sun’ em 1928, mas a música era bastante diferente, embora seus acordes tivessem alguma semelhança.
Em 1937, Alan Lomax gravou uma versão cantada por Georgia Turner, filha de mineiros do Kentucky, intitulada “Rising Sun Blues”. Nos anos 1940, novas gravações foram feitas por Woody Guthrie (1941), Josh White (1947) e Huddie “Lead Belly” (1944 e 1948).
Outro intérprete crucial foi Lead Belly, cujo estilo blues adicionou profundidade emocional à música. Sua interpretação destacou-se pelo uso da guitarra ressonadora e uma vocalização intensa.
Nos anos 1960, foi gravada por Joan Baez (1960), Bob Dylan (1961, publicado em 1962), Nina Simone (1962), The Animals (1964), Los Speakers (1965) e Frijid Pink (1969). Em seu disco de 1962, Bob Dylan atribuía ter conhecido a música através de Dave Van Ronk.
The Animals…
A versão mais famosa veio com The Animals em 1964. A banda descobriu a música durante uma turnê com o cantor folk Johnny Handle.
Capa The house of the rising Sun
Inspirados pela melodia sombria e pela narrativa envolvente, decidiram dar uma nova roupagem à canção.
O arranjo inovador destacou-se imediatamente. O icônico arpejo de guitarra e o uso marcante do órgão contribuíram para que essa versão se tornasse um marco na história da música popular, catapultando a canção para o topo das paradas internacionais.
Muitos outros artistas revisitaram ‘The House of the Rising Sun’, trazendo suas próprias visões e estilos. Nina Simone, Frijid Pink e Five Finger Death Punch adicionaram elementos de jazz, hard rock e metal, respectivamente.
O topo das paradas
O single rapidamente alcançou o topo das paradas no Reino Unido, nos Estados Unidos e em outros países, consolidando-se como um hit mundial. Esse sucesso alavancou a carreira dos The Animals e colocou a banda no mapa do rock dos anos 60.
O impacto cultural dessa versão é inegável. Ela ajudou a popularizar o folk rock e abriu portas para que outras bandas experimentassem com arranjos mais ousados e inovadores.
Além disso, foi frequentemente utilizada em trilhas sonoras de filmes e programas de televisão, perpetuando sua presença na cultura popular.
Até hoje, a interpretação dos The Animals é considerada um marco na história do rock, destacando-se como um exemplo clássico de como uma reinterpretação pode redefinir uma canção e deixá-la eternamente marcada na memória coletiva.
Os Problemas Internos no Grupo The Animals
O sucesso de ‘The House of the Rising Sun’ trouxe notoriedade e fortuna para The Animals, mas também desencadeou problemas internos que contribuíram para a dissolução do grupo original.
Um dos principais pontos de discórdia foi a questão dos direitos autorais e dos royalties.
Cada membro participou do processo criativo da versão definitiva, mas apenas Alan Price, tecladista responsável pelo solo do órgão, foi creditado pela adaptação da canção tradicional – sem o conhecimento dos outros membros.
Isso levou a uma distribuição desigual dos lucros e gerou tensões significativas dentro da banda.
Relatos informais afirmam que, ao ser descoberto, Price abandonou a banda no meio de uma turnê.
A decisão de creditar exclusivamente Alan Price gerou ressentimentos, especialmente porque ‘The House of the Rising Sun’ era o maior sucesso da banda.
As tensões e o fim
Os outros membros sentiam que suas contribuições não estavam sendo reconhecidas, levando a conflitos que corroeram a coesão do grupo. A falta de uma gestão eficiente exacerbou esses problemas, dificultando a resolução das disputas.
Os conflitos internos afetaram negativamente a dinâmica do grupo, minando a moral dos integrantes.
Eric Burdon, vocalista principal, frequentemente tentava mediar as discussões, sem sucesso.
Eventualmente, as divergências tornaram-se insustentáveis, culminando na dissolução da formação original em 1966.
Cada membro seguiu caminhos diferentes, com Alan Price lançando uma carreira solo e Eric Burdon formando novas bandas.
No entanto, os problemas internos gerados pelo sucesso da canção deixaram cicatrizes duradouras, influenciando suas trajetórias.
Assim, enquanto a canção permanece como um marco na história da música, os conflitos que ela gerou no seio de The Animals são um lembrete de como o sucesso pode, paradoxalmente, levar à desintegração de laços criativos e pessoais.
Se você assistiu ao filme La Bamba (1987), estrelado por Lou Diamond Phillips, Esai Morales e Danielle von Zerneck, certamente conhece um pouco da história que contaremos aqui.
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O Dia que, para alguns, entrou para a história como “O Dia em que a Música Morreu”: A Tragédia de Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper
A Trajetória de Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper
Cada um desses artistas trouxe algo único ao cenário do rock and roll, moldando o gênero de maneiras distintas e memoráveis.
Buddy Holly, nascido Charles Hardin Holley, foi um dos pioneiros do rock and roll.
Originário de Lubbock, Texas, começou sua carreira no início da década de 1950 e rapidamente se destacou por suas composições inovadoras e performances energéticas. Com sucessos como That’ll Be the Day e Peggy Sue, Holly não apenas conquistou o público, mas também influenciou gerações de músicos. Sua habilidade em combinar letras cativantes com melodias envolventes fez dele uma figura central no desenvolvimento do rock and roll moderno.
Ritchie Valens, cujo nome verdadeiro era Richard Steven Valenzuela, foi um prodígio do rock chicano.
Nascido em Pacoima, Califórnia, começou a tocar guitarra e a cantar desde muito jovem. Aos 17 anos, já havia alcançado fama nacional com hits como La Bamba e Donna. La Bamba, uma adaptação de uma canção folclórica mexicana, destacou sua capacidade de fundir culturas musicais distintas, criando um som que ressoava com uma ampla audiência.
Valens tornou-se um símbolo de orgulho cultural para a comunidade latina, deixando uma marca indelével no rock and roll.
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Big Bopper, nascido Jiles Perry Richardson Jr., era conhecido por seu estilo exuberante e carismático.
Originário de Sabine Pass, Texas, começou sua carreira como DJ antes de se tornar cantor e compositor de sucesso. Sua canção mais famosa, Chantilly Lace, exibiu sua personalidade vibrante e sua habilidade para criar músicas cativantes.
Além disso, foi inovador no marketing musical, utilizando a mídia para promover suas canções. Sua presença no palco e suas contribuições para a indústria fizeram dele uma figura inesquecível no rock and roll.
A Rotina dos Cantores na Época
A turnê Winter Dance Party foi marcada por uma rotina exaustiva para Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper. Os artistas enfrentavam uma agenda frenética, viajando grandes distâncias durante a noite para chegar ao próximo destino a tempo.
A logística era complicada, com a equipe frequentemente se deslocando em ônibus antigos e mal aquecidos, o que se tornava ainda mais difícil devido ao rigoroso inverno. Essas viagens testavam a resistência física dos cantores e afetavam seu bem-estar emocional.
O cansaço acumulado e a falta de descanso adequado geravam tensão constante. Além do desgaste físico, havia a pressão de manter a performance em alto nível, independentemente das circunstâncias adversas.
Apesar disso, havia momentos de camaradagem. Buddy Holly era conhecido por seu profissionalismo e dedicação, enquanto Ritchie Valens, o mais jovem do grupo, trazia uma energia jovial que ajudava a aliviar a tensão. Big Bopper, com sua personalidade expansiva, frequentemente animava a equipe.
Lidar com a fama e as pressões da indústria musical exigia uma rápida adaptação.
O sucesso repentino e a constante exposição pública tornavam o equilíbrio entre vida pessoal e profissional um desafio. A turnê Winter Dance Party ilustra os sacrifícios dos músicos da época, destacando tanto os momentos de triunfo quanto os desafios enfrentados diariamente.
As Circunstâncias do Acidente
O trágico acidente aéreo que ceifou as vidas de Buddy Holly, Ritchie Valens e Big Bopper ocorreu durante a turnê Winter Dance Party em fevereiro de 1959.
A turnê, que levava o rock and roll a várias cidades do Meio-Oeste dos Estados Unidos, enfrentava desafios logísticos severos. As longas viagens de ônibus em condições climáticas adversas tornaram-se exaustivas para os músicos e a equipe. Para minimizar o desgaste, Buddy Holly decidiu fretar um avião para chegar mais rápido ao próximo destino.
Na noite de 2 de fevereiro de 1959, após um show em Clear Lake, Iowa, Holly alugou um pequeno Beechcraft Bonanza para voar até Moorhead, Minnesota. Ritchie Valens e Big Bopper conseguiram lugares no voo. O piloto Roger Peterson, de 21 anos, foi contratado para a viagem.
Infelizmente, Peterson não estava suficientemente treinado para voar sob condições meteorológicas adversas e não possuía certificação para navegação por instrumentos.
Naquela noite, o tempo estava extremamente ruim, com ventos fortes e visibilidade reduzida devido à neve. Pouco após a decolagem, o avião perdeu o controle e caiu em um campo de milho, matando todos a bordo instantaneamente.
As investigações concluíram que a causa do acidente foi uma combinação de erro do piloto e condições climáticas severas. A falta de experiência de Peterson para operar sob tais circunstâncias foi um fator determinante. Essa tragédia marcou um momento sombrio na história da música, eternizando o dia 3 de fevereiro de 1959 como “O Dia em que a Música Morreu”.
Maiores Sucessos e Impacto na Arte e na História
Sim no dia 3 de fevereiro de 1959, o mundo da música perdeu três de seus mais brilhantes talentos em um trágico acidente de avião.
Buddy Holly, com hits como Peggy Sue e That’ll Be the Day, foi um pioneiro do rock and roll, estabelecendo novos padrões para a composição e produção musical. Sua influência se estendeu a bandas como The Beatles e The Rolling Stones, que o citam como inspiração fundamental.
Ritchie Valens, apesar de sua curta carreira, revolucionou a música com La Bamba, que misturava rock and roll com elementos da música tradicional mexicana. Esse hit abriu portas para a inclusão de artistas latinos na indústria musical americana, influenciando gerações de músicos de diversas origens culturais.
Big Bopper, com seu estilo único e personalidade vibrante, deixou uma marca duradoura com Chantilly Lace. Sua abordagem inovadora ao entretenimento ajudou a definir o papel do artista como showman, algo adotado por muitos músicos nas décadas seguintes.
Homenagens póstumas, como a canção American Pie de Don McLean, perpetuaram a memória desses artistas e solidificaram seu legado na história da música. O impacto deste acidente é constantemente relembrado como “O Dia em que a Música Morreu”.
Não sabes criança? ‘Stou louco de amores… Prendi meus afetos, formosa Pepita. Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas?! Não rias, prendi-me Num laço de fita. Na selva sombria de tuas madeixas, Nos negros cabelos da moça bonita, Fingindo a serpente qu’enlaça a folhagem, Formoso enroscava-se O laço de fita. Meu ser, que voava nas luzes da festa, Qual pássaro bravo, que os ares agita, Eu vi de repente cativo, submisso Rolar prisioneiro Num laço de fita. E agora enleada na tênue cadeia Debalde minh’alma se embate, se irrita… O braço, que rompe cadeias de ferro, Não quebra teus elos, Ó laço de fita! Meu Deus! As falenas têm asas de opala, Os astros se libram na plaga infinita. Os anjos repousam nas penas brilhantes… Mas tu… tens por asas Um laço de fita. Há pouco voavas na célere valsa, Na valsa que anseia, que estua e palpita. Por que é que tremeste? Não eram meus lábios… Beijava-te apenas… Teu laço de fita. Mas ai! findo o baile, despindo os adornos N’alcova onde a vela ciosa… crepita, Talvez da cadeia libertes as tranças Mas eu… fico preso No laço de fita. Pois bem! Quando um dia na sombra do vale Abrirem-me a cova… formosa Pepita! Ao menos arranca meus louros da fronte, E dá-me por c’roa… Teu laço de fita.
Comentando o Poema
A quem foi dedicado?
Este belo poema certamente tinha de ser dedicado a alguém.
É contado em alguns lugares que o poema “O Laço de Fita” foi dedicado a uma formosa jovem paulistana chamada Maria Amália Lopes de Azevedo:
“Não sabes, criança? ‘stou louco de amores… Prendi meus afetos, formosa Pepita. Mas onde? No templo, no espaço, nas névoas? Não rias, prendi-me num laço de fita…”
A bela jovem mais tarde se tornaria dona das terras que hoje compõem o bairro do Tremembé, cuja principal avenida leva seu nome. Essa versão, porém, que faz dela a musa inspiradora de “O Laço de Fita”, não é confirmada pelos historiadores.
Simbolismos
Essa poesia de Castro Alves é um belíssimo exemplo do lirismo romântico, repleto de musicalidade, imagens vívidas e uma intensa entrega sentimental.
A repetição do símbolo do “laço de fita” confere unidade ao poema, transformando um simples adorno em um poderoso emblema da paixão e do aprisionamento amoroso.
O eu lírico se declara enfeitiçado por Pepita, e sua paixão não está presa a conceitos abstratos como templo ou névoas, mas sim a um elemento concreto e delicado: o laço de fita nos cabelos da amada.
O laço adquire um simbolismo duplo, representando tanto a suavidade do amor quanto a força de sua escravidão sentimental. A metáfora da serpente que se enrosca na folhagem reforça essa ideia de encantamento e domínio.
Esse jogo entre liberdade e cativeiro é um dos grandes temas do poema.
O eu lírico começa como um pássaro que voa livremente, mas é subitamente capturado.
Ele compara sua paixão a uma cadeia quase invisível, pois, embora sua força possa romper cadeias de ferro, ele é incapaz de se libertar do suave e frágil laço de fita. Essa contradição ressalta o poder avassalador do amor.
Romantismo
Na última estrofe, o tom se torna mais melancólico, evocando a morte como o destino final.
Mesmo após a morte, ele deseja que o laço esteja presente como sua coroa fúnebre, demonstrando a ideia romântica da paixão eterna, que transcende a vida.
Castro Alves, com sua habilidade descritiva, transforma um detalhe aparentemente simples — um laço nos cabelos — em um elemento que amplifica o fascínio de Pepita. O “laço de fita” não é apenas um símbolo de aprisionamento amoroso, mas também um adorno que intensifica a beleza da amada.
O verso “Na selva sombria de tuas madeixas, / Nos negros cabelos da moça bonita” destaca como o laço não apenas enfeita, mas dialoga com a imagem dos cabelos negros, criando um contraste e um jogo de luz e sombra que potencializam o magnetismo da personagem.
Esse detalhe sugere que a beleza de Pepita não está apenas em sua aparência, mas também no efeito que ela causa no olhar do apaixonado.
A eternidade
O laço, por ser um objeto delicado e passageiro, torna-se um símbolo da efemeridade dos momentos de encanto.
A forma como ele se movimenta na dança, como é beijado pelo vento (e não pelos lábios do eu lírico), reforça a ideia de que o desejo e a adoração se voltam para algo quase etéreo, um detalhe que, paradoxalmente, aprisiona e liberta ao mesmo tempo.
Os últimos versos:
“Pois bem! Quando um dia na sombra do vale Abrirem-me a cova… formosa Pepita! Ao menos arranca meus louros da fronte, E dá-me por c’roa… Teu laço de fita.”
O poeta dramatiza o amor como algo tão essencial que ele quer levá-lo consigo para a eternidade.
Não é apenas a lembrança de Pepita que ele deseja no túmulo, mas o próprio laço, símbolo de sua submissão apaixonada, de sua prisão voluntária nos encantos da amada.
Esse pedido final torna o poema mais intenso e sentimental porque sugere que o amor não termina com a vida, mas permanece como um desejo derradeiro, uma espécie de última vontade sagrada.
Essa visão reforça o tom romântico exacerbado de Castro Alves, onde o sentimento amoroso é vivido com tal plenitude que não há distinção entre amor e destino.
A força da poesia vem justamente desse exagero belo e arrebatador, onde um simples ornamento se transforma no emblema de um amor que transcende tempo e matéria.
Resumo biográfico
Castro Alves: O Poeta da Liberdade
O poeta Castro Alves foi uma grande expressão do Romantismo no Brasil.
Antônio Frederico de Castro Alves (1847-1871) foi um dos maiores poetas românticos do Brasil, destacado por seu engajamento social e político.
Nascido na Fazenda Cabaceiras, na Bahia, cresceu em um ambiente culto e, desde cedo, demonstrou talento para a poesia. Iniciou sua produção literária ainda adolescente e, aos 17 anos, já escrevia os versos de Os Escravos, tornando-se um ícone da luta abolicionista.
Publicou Espumas Flutuantes em vida, mas sua morte prematura, aos 24 anos, interrompeu uma carreira brilhante. Seu legado, no entanto, permanece vivo, inspirando gerações com sua poesia apaixonada e combativa.
Eugênia Câmara, grande amor do poeta
A vida intensa, somada às circunstâncias da época, contribuiu para seu declínio e, posteriormente, sua morte.
Castro Alves foi um homem de muitas paixões, apaixonando-se intensa e constantemente. Podemos citar Leonídia Fraga, que o amou desde o início sem ser correspondida, como merecia, ou mesmo sua primeira mulher, Idalina, e as irmãs hebreias.
Sua última paixão não correspondida foi a cantora italiana Agnese Trinci Murri.
Aquela que, porém, refletia seu espírito intenso e aventureiro foi a atriz Eugênia Câmara. Talvez por isso tenha sofrido tanto com as consequências da separação, marcada por brigas e traições.
Após uma vida intensa, faleceu em 1871.
A sua vida e importãncia serão abordados em futuros posts.
No centenário de sua morte, em 1971, decidiu-se pelo traslado de seus restos mortais para o monumento na Praça Castro Alves, em Salvador, sob determinação do então prefeito Antônio Carlos Magalhães.
A decisão contrariou um sobrinho-neto do poeta, que defendia a construção de um panteão. A transferência ocorreu sem cerimônia especial no dia 6 de julho daquele ano.
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !
Não vejo nada assim enlouquecida …
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa …”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !
E, olhos postos em ti, digo de rastros :
“Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! …”
Florbela Espanca
Comentando o Soneto
A Expressão do Amor Absoluto
Esse soneto de Florbela Espanca é uma das mais belas expressões do amor absoluto e arrebatador. O poema é um exemplo clássico da poesia ultrarromântica, onde o eu lírico se entrega completamente à figura amada, transcendendo qualquer limite racional. Desde o primeiro verso, percebe-se a intensidade dessa entrega:
“Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida”
O amor não é apenas um sentimento, mas uma totalidade que domina a existência da poeta. A visão do ser amado é tão constante que a realidade ao redor se dissolve – os olhos ficam “cegos de te ver”.
A Fascinação e a Efemeridade
Na segunda estrofe, Florbela reforça essa ideia ao comparar a leitura do amado a um livro misterioso, cujo conteúdo é sempre o mesmo, mas nunca deixa de ser fascinante. O terceiro quarteto introduz um contraponto interessante: a noção de efemeridade. O mundo é passageiro, tudo se desfaz, mas a voz interior da poeta nega essa transitoriedade com uma fé inabalável no amor.
Esse soneto é um exemplo marcante da poética de Florbela Espanca, caracterizada pelo excesso emocional, pela paixão intensa e por uma sensibilidade à flor da pele. Sua poesia expressa uma entrega absoluta ao amor, quase como uma fusão entre o eu lírico e a figura amada. Florbela não apenas ama, mas se dissolve nesse amor, tornando-o o próprio sentido de sua existência.
A busca pela completude é evidente em versos como:
“Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!”
Aqui, o amor deixa de ser uma parte da vida e passa a ser a vida inteira.
Versos Finais
E então vem o impacto dos versos finais:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!”
O amor alcança sua máxima elevação: ele é eterno, absoluto e divino. A hipérbole e a comparação com Deus enfatizam o fanatismo do título – um amor que transcende até mesmo as leis do tempo e do universo. A última estrofe reforça essa busca pelo absoluto, recusando a efemeridade das coisas e se refugiando na ideia de um amor que transcende o tempo e a realidade. Isso reflete bem sua intensidade emocional e espiritual, tanto na poesia quanto na vida.
O Amor como Refúgio e Frustração
Analisando a biografia da autora, percebe-se que ela idealizava o amor como um refúgio para suas dores, um porto seguro para suas feridas emocionais. No entanto, sua intensidade e exigência emocional tornavam essa busca frustrante. Para ela, o amor deveria ser algo divino, eterno e absoluto, como expressa em Fanatismo, mas a realidade raramente correspondia a essa visão.
Isso também explica a melancolia presente em seus versos: mesmo quando o amor acontece, ele nunca é suficiente para preencher o vazio da alma. Talvez o maior amor de Florbela tenha sido justamente esse amor inatingível, que ela alimentava mais na imaginação do que na vida real.
Resumo biográfico
Florbela Espanca (1894–1930) foi uma das maiores poetisas portuguesas, reconhecida por sua escrita intensa e emocional. Sua obra, permeada por temas como amor, sofrimento, solidão e busca pelo absoluto, reflete uma vida pessoal marcada por desafios e crises emocionais profundas.
Nascida em 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa, no Alentejo, era filha de Antónia da Conceição Lobo e do republicano João Maria Espanca. Fruto de uma relação extraconjugal, foi reconhecida oficialmente pelo pai apenas após a morte da mãe, que faleceu quando Florbela tinha 14 anos. Criada na casa paterna, desde cedo demonstrou talento literário, assinando seus primeiros textos como Flor d’Alma da Conceição e escrevendo poemas dedicados ao pai e ao irmão Apeles.
A arte, o amor, o resumo
Florbela Espanca teve uma vida marcada por intensas dores emocionais, perdas e desilusões, que contribuíram para um fim trágico.
Ela foi uma das primeiras mulheres a frequentar a universidade em Portugal, ingressando na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa em 1917. Antes disso, estudou no Liceu Nacional de Évora, onde teve contato com autores como Balzac, Dumas e Camilo Castelo Branco. Sua carreira literária iniciou-se com Livro de Mágoas (1919), seguido por Livro de Soror Saudade (1923), obras que se destacam pelo lirismo intenso, paixão e melancolia. Influenciada pelo ultrarromantismo e simbolismo, sua poesia carrega uma sensibilidade exacerbada, erotismo e uma busca constante pelo amor transcendental.
Sua vida amorosa foi instável, com três casamentos fracassados. Em 1927, sofreu um dos maiores golpes de sua vida: a morte de seu irmão Apeles em um acidente de avião. A perda a mergulhou em profunda tristeza e inspirou As Máscaras do Destino, publicado postumamente.
Problemas de saúde e crises existenciais
Nos últimos anos de sua vida, Florbela também sofria de problemas de saúde, incluindo doenças nervosas e psicológicas, agravadas por uma série de crises existenciais. Em 1930, após várias tentativas de suicídio, acabou falecendo no dia do seu aniversário, 8 de dezembro, possivelmente por overdose de barbitúricos.
Sua morte precoce reforçou a aura trágica que a cercava, mas sua obra continua a emocionar gerações. Seu soneto Fanatismo ilustra bem sua entrega ao amor idealizado:
“Não és sequer a razão do meu viver, Pois que tu és já toda a minha vida!”
Essa devoção absoluta revela uma mulher que ansiava por plenitude emocional, mas se via constantemente frustrada pela realidade.
A sua arte continua viva, e sua poesia segue encantando e emocionando gerações. O soneto Fanatismo fez grande sucesso no Brasil ao ser interpretado musicalmente pelo cantor cearense Raimundo Fagner.
Este pequeno texto talvez não seja um divisor de águas na sua vida, mas que tal entender a origem desta expressão que já virou chavão por aqui?
Vamos lá, então:
O que é um Divisor de Águas?
O termo “divisor de águas” é usado para descrever um evento ou momento que marca uma mudança significativa em uma determinada situação. Esse conceito se aplica a diversos campos, como história, política, tecnologia e negócios.
A expressão vem da hidrografia e refere-se à linha imaginária que separa duas bacias hidrográficas, determinando para onde as águas escoam. O significado foi ampliado para representar momentos de transformação em outras áreas.
Significado e Importância
Um divisor de águas indica um ponto de virada que altera a forma como algo é percebido, pensado ou conduzido. Pode representar uma nova abordagem, tecnologia ou ideia. Sua importância reside na capacidade de abrir caminho para novas perspectivas e impulsionar o progresso.
Exemplos na História
Revolução Francesa (1789) – Marcou o fim do Antigo Regime e o início de uma nova ordem política e social.
Revolução Industrial (séculos XVIII e XIX) – Transformou a produção artesanal em industrial, impactando a economia e a sociedade.
Descoberta da Penicilina (1928) – Revolucionou a medicina com o primeiro antibiótico eficaz, salvando milhões de vidas.
Lançamento do iPhone (2007) – Mudou a indústria de smartphones, introduzindo novas formas de interação digital.
Impacto na Sociedade
Um divisor de águas pode gerar avanços e desafios. A Revolução Industrial, por exemplo, trouxe progresso tecnológico, mas também desigualdades sociais. Da mesma forma, a internet facilitou a comunicação, mas levantou questões sobre privacidade e segurança.
Como identificar um divisor de águas?
Nem sempre é fácil reconhecer um divisor de águas no momento em que ocorre. Porém, eventos que despertam grande interesse e provocam mudanças profundas geralmente indicam uma transformação significativa.
Conclusão
Divisores de águas representam mudanças marcantes que influenciam diversos aspectos da sociedade. Seja na história, na ciência ou na tecnologia, esses momentos definem o rumo do futuro e impulsionam novas possibilidades.
Bem, que acontecimento foi um divisor de águas em sua vida?
O que é fazer valer um sonho quando todos os sinais te apontam o mais fácil, que é desistir?
Às vezes, insistir num objetivo é saber insistir, apesar das frustrações. Por exemplo, como se sentem poetas, bons compositores e arranjadores quando percebem a qualidade da música atual e as mensagens nas letras (quando há alguma mensagem!)?
Não me acusem de reacionário, moralista ou seja lá o que for, com aquela frase batida de que tudo é questão de gosto.
É verdade que alguém sempre reclamará da decadência musical ao longo das décadas, mas isso também pode significar que os estilos coexistem e que prevalecem aquilo com que se identifica a sociedade atual. Por isso, ainda exerço o meu direito de gostar daquelas canções que chocam pela beleza, pela harmonia entre melodia e letra…
Como se molda o gosto musical?
A Música como Produto
O fato é que a maior exposição musical é dada àquelas canções com potencial de vendas, mesmo que seja por um curto período de tempo e que serão substituídas por canções bem parecidas, com o mesmo objetivo de vendas, em que a música é apenas um mero produto a ser usado e descartado. Ninguém sentirá falta quando o sucesso passar.
A música não tem sido encarada como arte a se eternizar; reduziu-se a um produto, um mero produto.
E Quanto às Obras-Primas?
Você talvez pense: “Ah! O Spotify, o Deezer, o YouTube e outros meios estão aí. A pessoa pode procurar o que quiser!” É verdade, mas você sabia que boa parte do que você gosta foi apresentado por alguém ou por um meio de comunicação?
Isso significa que, se as pessoas forem expostas a apenas um ou dois estilos de música, de melodias simples, terão dificuldades em se interessar por arranjos e letras mais complexas.
A exposição a vários estilos musicais seria essencial para ajudar na formação artística e cultural do indivíduo. Mas, atualmente, isso não acontece.
O “Jabá Turbinado” e o “Sucesso”
Hoje vivemos o “jabá turbinado”, que funciona de maneira sutil, mas extremamente eficaz.
Empresários, especialmente do campo do agro/sertanejo, não apenas pagam mais para terem seus produtos expostos, compram também estações de rádio, que tocarão exaustivamente seus produtos. A estratégia é composta por passos bem definidos:
Repetição Exaustiva: As músicas são tocadas repetidamente nas rádios compradas ou contratadas, garantindo que fiquem na cabeça do público.
Construção de Empatia: Comentários sobre a vida pessoal dos artistas, muitas vezes elaborados estrategicamente, geram identificação e conexão emocional com o público.
Narrativa de Superação: Biografias que destacam a saga do “herói humilde que alcançou o sucesso” são cuidadosamente construídas para comover e inspirar.
Marketing Integrado: Notícias, fofocas e até intervalos entre as canções são utilizados para manter vivo o interesse do público.
Outros estilos musicais não têm espaço nessas emissoras, porque o objetivo principal é vender o produto. Em especial, em pequenas cidades, presume-se que o público seja menos informado e, portanto, mais suscetível à manipulação.
A consequência? Pressões e negociatas surgem.
Cultura e Política
A população dessas cidades, ao saber que um astro visitou uma cidade vizinha, passa a pressionar o administrador público para trazer o espetáculo. E, muitas vezes, o administrador cede, gastando mais do que o orçamento mensal destinado à saúde ou educação para atender à demanda.
Shows patrocinados por verbas públicas frequentemente estão associados a mau uso de recursos, isso quando não há desvios. Alguns argumentam que “não usamos a Lei Rouanet”, mas é preciso esclarecer:
A Lei Rouanet foi criada para incentivar o financiamento da arte com recursos privados, permitindo deduções no imposto de renda dos patrocinadores, sem utilizar diretamente dinheiro público.
O “Sonho” de Comunicar
Um amigo meu, desde jovem, sonhava em ter uma estação de rádio para promover artistas locais e tocar canções de todas as épocas. Durante um tempo, ele investiu em um serviço de alto-falantes, o “Som da Cidade”, que trazia uma programação eclética com espaço para todos os estilos musicais, notícias locais e até transmissões das sessões da Câmara Municipal.
Com o sucesso do Som da Cidade, ele decidiu investir numa rádio. O início foi promissor, mas os problemas não demoraram a surgir.
O clima político da cidade era acirrado. Ao apontar falhas da administração pública, foi agredido fisicamente em duas ocasiões, em administrações diferentes. As paixões pessoais estavam acima dos interesses públicos e culturais.
O comércio local não se interessava em patrocinar a rádio, e os administradores públicos temiam associar-se a quem poderia denunciá-los. Além disso, o custo com direitos autorais (ECAD) era desanimador para quem desejava iniciar uma pequena emissora.
Documentos, contas e processos descansavam sobre a mesa do pequeno escritório que ele montou com recursos próprios, mas o sonho de erguer novamente a rádio nunca se concretizou. Ele gostava de ter seu nome ligado à comunicação.
Nos últimos dias, ainda sonhava em lançar um livro contando toda a sua batalha, desde as dificuldades em manter uma rádio com identidade própria aos seus desafios na construção desse sonho.
Seria um ótimo livro!
Reflexões
Desde jovem, sempre sonhei em escrever memórias, histórias, poemas, músicas… o que me viesse à cabeça. Hoje, sem o meu amigo, me pergunto: será que vale a pena insistir nesse sonho, quando o caminho mais sábio parece ser desistir?
Falar de música, poesias, histórias…arte! Sei que tudo mudará, certamente, mas em que direção?
Haverá algum dia espaço para se conversar sobre notícias, poesias, histórias e músicas longe das paixões doentias que apenas dividem e afastam? Haverá espaço para a diversidade ou apenas o poder financeiro fará da pessoas fantoches, ditando o que fazer e ouvir?
Um dia, retornando do trabalho, deparei-me com o que costumam chamar de pichações num grande muro que separa o bairro mais distante do caminho de onde moro. Ao olhar com atenção, percebi que o que pareciam ser borrões transformava-se na face de um escritor quando eu atingia certa distância, mas desaparecia poucos passos à frente.
Confesso que não sei se o efeito era intencional ou mero acidente, mas aquilo me fez refletir sobre o que é a arte. Esse é o dom da arte: fazer pensar, refletir!
Não sei quem foi o autor daquela imagem, nem se ele desistiu depois daquela arte.
Assim como ele, escrevo apenas por escrever. Não sei se alguém, na distância do tempo, vai parar, olhar ou mesmo se preocupar em entender o que tentei dizer.
Desejo apenas que alguém veja minhas palavras como vi aquela imagem no muro: da distância correta, ganhando sentido e, talvez, revivendo minhas histórias.
Quando penso na arte e na cultura em geral, frequentemente desejo desistir. É, realmente, caminhar sozinho, a um horizonte muito mais fácil.
A Origem dos Militares e sua Relação com a Coroa Portuguesa
A história das forças armadas no Brasil remonta ao período colonial, quando a coroa portuguesa estabeleceu uma presença militar significativa para proteger seus interesses e manter a ordem.
Desde sua fundação, os militares estiveram intrinsecamente ligados aos objetivos da coroa, atuando não apenas como defensores, mas também como agentes de controle social.
A lealdade dos militares à coroa era inquestionável, e sua atuação estendia-se à repressão de manifestações populares e à manutenção da hierarquia colonial.
Um dos exemplos mais notáveis dessa brutalidade militar ocorreu durante a Revolta dos Malês, em 1835, um levante de escravizados e muçulmanos que buscavam liberdade em Salvador, Bahia.
O governo português, temendo que a revolta se espalhasse, mobilizou tropas para reprimi-la.
A resposta violenta dos militares não apenas sufocou o movimento, mas também enviou uma mensagem clara sobre o uso da força como meio de controle e repressão contra qualquer iniciativa que ameaçasse a estabilidade colonial.
Outro marco significativo na atuação militar ocorreu durante a Guerra dos Farrapos, que começou em 1835 e se estendeu até 1845.
Os militares foram utilizados para combater os rebeldes do sul, demonstrando como as forças armadas eram vistas como elementos cruciais para a manutenção da ordem e da hegemonia da coroa.
Esse tipo de intervenção não foi isolado, mas repetido em vários conflitos ao longo do período colonial, estabelecendo um padrão de repressão e uso da força militar que, posteriormente, influenciaria a trajetória política do Brasil.
Ao longo dos séculos, essa relação de subserviência e repressão moldou a identidade das forças armadas, consolidando sua posição como atores centrais no jogo político brasileiro, com impactos duradouros na história do país.
O Golpe de 1889 e a Proclamação da República
O golpe de 1889, que culminou na Proclamação da República no Brasil, é um marco crucial na história do país, refletindo a crescente influência dos militares nos rumos políticos.
A adesão dos militares a esse movimento não foi mera coincidência; ela resultou de uma série de fatores sociais e políticos que culminaram na demanda por mudanças no regime monárquico.
Percebendo a instabilidade da monarquia, que enfrentava crises econômicas e políticas, os militares se posicionaram como agentes de transformação e, ao mesmo tempo, como “garantidores da lei”. Essa autopercepção lhes conferiu um papel central na nova ordem republicana.
Um dos fatores desestabilizadores da monarquia era o avanço do processo de abolição dos escravizados, que causava grande apreensão entre as elites econômicas. Temendo o impacto sobre suas economias, a elite, com o apoio dos militares, planejou o golpe para manter suas vantagens, afastando um imperador adoecido.
Não houve comoção pública. Segundo o livro Os Bestializados, os pobres não entendiam o que estava acontecendo, enquanto a elite agia em favor de si mesma.
Uma das supostas razões para a adesão dos militares ao golpe foi o sentimento de insatisfação com as elites políticas da época, vistas como ineficazes e corruptas.
Muitos oficiais militares acreditavam que essas elites estavam mais interessadas em proteger seus próprios interesses do que em promover o bem comum. Essa percepção fortaleceu a noção de que era dever moral dos militares intervir em nome da nação.
Essa postura contribuiu para a consolidação de uma visão elitista e corporativista da política brasileira, que perduraria ao longo do tempo, conferindo aos militares um papel privilegiado na nova república.
Os primeiros presidentes da república foram militares e perpetuaram o mesmo sistema elitista e corporativista, com um agravante: a repressão violenta a quem discordasse de seus métodos.
Por exemplo, Floriano Peixoto prendeu e condenou ao desterro em Cucuí, no Amazonas, José do Patrocínio, antigo abolicionista e forte crítico do governo.
Outro episódio emblemático foi o Massacre de Anhatomirim, ocorrido em 1894, durante a Revolução Federalista.
Sob o comando do coronel Antônio Moreira César, atendendo a ordens do presidente Floriano Peixoto, 298 pessoas ligadas à revolução foram fuziladas.
Ironia histórica, a cidade de Florianópolis recebeu esse nome em homenagem ao homem que ordenou o massacre.
As consequências desse golpe foram vastas e impactaram profundamente a estrutura política e social do Brasil. A Proclamação da República não apenas alterou a forma de governança do país, mas também estabeleceu precedentes que solidificaram a intervenção militar em questões políticas, prática que se tornaria recorrente nas décadas seguintes.
A visão de militares “como salvaguardas” da ordem e da justiça se perpetuou, moldando a interação entre os poderes civis e militares ao longo da história do Brasil.
A Atuação Militar Durante o Século XX e o Golpe de 1964
O século XX foi um período marcado por intensas transformações políticas e sociais no Brasil, culminando no golpe militar de 1964.
Esse evento, frequentemente confundido com uma revolução, foi, na verdade, uma ação de Estado que resultou na deposição do então presidente João Goulart.
Os militares, alegando a necessidade de restaurar a ordem em um contexto de crescente instabilidade política e econômica, tomaram o poder e instauraram um regime autoritário que perdurou até 1985.
Documentos divulgados posteriormente revelaram o papel de políticos, militares, empresários brasileiros e dos Estados Unidos nos bastidores, financiando o golpe e ampliando sua influência no Brasil.
Nos anos que se seguiram, a atuação militar consolidou-se em uma série de medidas “para assegurar o controle sobre o país”.
A promulgação de uma nova Constituição em 1967 foi uma dessas ações, visando legitimar o regime e criar uma estrutura política que perpetuasse a influência militar a longo prazo.
Essa estrutura era fundamentada em uma retórica de segurança nacional, que justificava repressões políticas e violações de direitos humanos como necessárias ao bem-estar da sociedade. O Ato Institucional nº 5 (AI-5) deixou claro que estava sendo instituída uma ditadura no Brasil.
O regime militar teve impactos profundos na sociedade brasileira, exacerbando desigualdades sociais e políticas. A repressão a opositores e a censura aos meios de comunicação foram estratégias amplamente empregadas para silenciar vozes dissidentes.
Além disso, os privilégios concedidos aos militares tornaram-se uma marca registrada do período, assegurados por leis que garantiam benefícios e vantagens aos integrantes das forças armadas. Nesse contexto, a elite militar consolidou sua crescente influência na política nacional.
Assim, a atuação militar no Brasil durante o século XX, especialmente no golpe de 1964, destacou-se não apenas pela condução direta da política, mas também pela criação de um legado de privilégios que ainda reverberam na sociedade contemporânea.
Esse capítulo sombrio da história brasileira continua a levantar questionamentos sobre o impacto duradouro dessas ações. Durante o governo de Dilma Rousseff, as Forças Militares se posicionaram contra a Comissão da Verdade, que tinha como objetivo esclarecer os crimes cometidos durante a Ditadura no Brasil.
Privilégios Conquistados e a Questão da Polícia Unificada
Abordaremos em futuras postagens a atuação da polícia militar entre os anos de 1964 e 1985.
Os privilégios dos militares no Brasil, consagrados na Constituição de 1988, refletem uma continuidade histórica que remonta a períodos anteriores de repressão e autoritarismo.
Esta Constituição garantiu uma série de direitos que diferenciam as Forças Armadas e a Polícia Militar da sociedade civil, o que suscita debates sobre seu impacto na política e na segurança pública do país.
Esses privilégios têm sido objeto de críticas, especialmente em um contexto onde a violência urbana se intensifica e novos desafios de segurança emergem.
No cerne dessa discussão está a proposta de uma polícia unificada no Brasil.
O objetivo dessa abordagem é integrar as diversas forças de segurança sob um comando único, promovendo maior eficiência e eficácia no combate à criminalidade. A criação de uma polícia unificada poderia levar à redução da duplicidade de esforços, além de otimizar recursos operacionais.
Com uma estrutura coesa, a polícia unificada poderia implementar estratégias mais coordenadas e direcionadas, melhorando a resposta às demandas sociais e de segurança da população brasileira.
Entretanto, a transição para uma polícia unificada não é isenta de desafios.
A resistência por parte de setores que detêm privilégios, como os militares, pode dificultar essa proposta, pois estes possuem uma forte influência sobre a estrutura de segurança vigente.
A lógica militarizada que permeia as forças de segurança também levanta preocupações sobre a manutenção dos direitos humanos e da abordagem comunitária na atuação policial.
Assim, para que uma polícia unificada possa ser efetiva, será necessária uma reavaliação dos privilégios dos militares, promovendo um diálogo mais amplo entre os diferentes atores da segurança pública e a sociedade.
A atuação das forças militares brasileiras nas guerras não foi abordada neste post, mas será tema de artigos futuros.
O comércio esperou o ano inteiro para adornar as suas lojas com enfeites natalinos, atraindo mais clientes com brinquedos e iguarias típicas das festas de fim de ano.
A tentação dos olhos é acalmada pelas alegres canções natalinas.
Crianças pobres admiram das vitrines os mais belos brinquedos, mas não estão inocentes, “o seu Papai Noel” não vem, como das outras vezes.
A disparidade das diferenças sociais é visível nesta época do ano.
Enquanto isso acontece, o fundo musical não poderia ser mais honesto: Ouço “Boas Festas”, uma composição do baiano Assis Valente.
Pois é, enquanto o Natal é sinônimo de celebração para muitos, também expõe as desigualdades sociais e os desafios emocionais, como os enfrentados por Assis Valente…
Vamos Conheer a sua história.
Conhecendo Assis Valente
Assis Valente foi um dos maiores nomes da música brasileira que sofreu de intensa depressão em sua vida, um tema que ainda hoje ressoa devido à importância de se discutir saúde mental, especialmente entre artistas.
Nasceu no dia 19 de março de 1911, na Bahia, em local controverso entre Salvador e o distrito santamarense de Bom Jardim.
Assis Valente – Wikipedia
Assis viveu muitas dificuldades na infância.
Ainda menino, foi separado de seus pais biológicos e entregue a uma família em Santo Amaro, onde foi educado, mas também obrigado a realizar trabalhos extenuantes.
Mais tarde, foi criado por outro casal em Alagoinhas, que o matriculou no Liceu de Artes e Ofícios da Bahia para aprimorar suas habilidades em desenho e escultura.
Durante a juventude, trabalhou como doméstico, assistente em hospitais e até declamador de versos em um circo. Essas experiências moldariam tanto sua personalidade quanto sua obra.
Mudança para o Rio de Janeiro
Era na capital que as coisas aconteciam…
Em 1927, mudou-se para o Rio de Janeiro, onde trabalhou como protético e ilustrador, publicando desenhos em revistas como Shimmy e Fon-Fon.
Mudando para o Rio, ele se tornou um dos compositores mais aclamados da era do rádio, escrevendo sucessos para intérpretes icônicos como Carmen Miranda e Orlando Silva.
Na década de 1930, incentivado por Heitor dos Prazeres, começou a compor sambas que alcançaram sucesso nas vozes de grandes intérpretes.
Seu primeiro sucesso, “Tem Francesa no Morro” (1932), foi cantado por Aracy Cortes.
Compositor de músicas festivas
Assis Valente também é considerado pioneiro em criar músicas para festas juninas (“Cai, Cai, Balão”) e natalinas (“Boas Festas”), ambas de 1933.
“Boas Festas”, composta em um quarto de pensão em Niterói durante o Natal de 1932, é um marco na música brasileira, retratando a realidade de desigualdade social vivida pelo próprio compositor.
Assis, então com 24 anos, estava sozinho e deprimido, longe da família e sem notícias dos seus entes queridos.
Inspirado por uma imagem natalina no quarto, a composição tornou-se uma expressão de sua melancolia e um pedido por felicidade.
A canção consolidou-se como um ícone do Natal à brasileira, sendo amplamente regravada por diversos artistas ao longo das décadas.
Apesar de sua genialidade e das canções que marcaram época, como “Brasil Pandeiro” e “Camisa Listrada”, Assis enfrentou profundas angústias internas.
“Brasil Pandeiro”, sucesso que foi recusado por Carmen Miranda, ganhou notoriedade com os Anjos do Inferno e, mais tarde, com os Novos Baianos.
Conflitos internos
A depressão que o acometeu foi agravada por circunstâncias externas e internas.
Ele sofreu com questões financeiras, apesar do sucesso de suas músicas, e também com o reconhecimento limitado de sua contribuição artística na época.
Muitas de suas composições eram vendidas a preços irrisórios, privando-o de uma fonte de renda estável.
A crise financeira se agravou com dívidas crescentes, como a que teve com Elvira Pagã, cantora de alguns de seus sucessos.
Além disso, a pressão para manter o padrão de vida exigido por sua posição na sociedade exacerbava suas dificuldades econômicas.
Assis, um homem sensível, parecia carregar o peso do mundo em suas criações, que mesclavam humor, crítica social e uma melancolia subjacente.
Uma triste vida tumultuada e o fim
Casou-se em 1939 e teve uma filha, Nara Nadyli, mas o casamento terminou em separação.
Enfrentou várias tentativas de suicídio, incluindo uma em 1941, quando saltou do Corcovado, mas foi salvo pelas árvores.
Em um dos momentos mais desesperadores, procurou o escritório de direitos autorais na esperança de conseguir dinheiro, mas recebeu apenas um calmante.
Assis Valente decidiu encerrar sua vida no dia 11 de março de 1958, uma terça-feira chuvosa no Rio de Janeiro. Endividado e profundamente abatido, comunicou sua intenção a amigos e funcionários, antes de ingerir formicida em um banco de rua no Largo da Glória.
No bolso, deixou um bilhete onde pedia a Ary Barroso que pagasse dois aluguéis atrasados. Seu último verso dizia: “Vou parar de escrever, pois estou chorando de saudade de todos, e de tudo.”
Lições e legado
A relevância de Assis Valente transcende sua tragédia pessoal.
Ele deixou um legado que continua a influenciar a música popular brasileira, evidenciando o papel do artista como cronista de sua época.
Hoje, sua história inspira reflexões sobre os desafios enfrentados pelos criadores e a importância de oferecer suporte a quem lida com problemas emocionais e psicológicos.
Convém lembrar que mesmo na atualidade alguns intérpretes famosos exigem ter seus nomes como co-compositores de canções potencialmente lucrativas, desmerecendo o verdadeiro compositor, que teme ser boicotado caso não aceite.
As canções de Assis Valente foram redescobertas nos anos 1960 e desde então vem sendo regravadas por grandes nomes da MPB, como Chico Buarque, Maria Bethânia e Elis Regina.
Sua obra reflete sua genialidade como compositor, e também a realidade de uma época marcada por desigualdades sociais e desafios pessoais.
Conheça a letra:
Boas Festas
Assis Valente
Anoiteceu
O sino gemeu
E a gente ficou
Feliz a rezar
Papai Noel
Vê se você tem
A felicidade
Pra você me dar
Eu pensei que todo mundo
Fosse filho de Papai Noel
Bem assim felicidade
Eu pensei que fosse uma
Brincadeira de papel
Já faz tempo que eu pedi
Mas o meu Papai Noel não vem
Com certeza já morreu
Ou então felicidade
É brinquedo que não tem
Oh, anoiteceu