“Não há nada como regressar a um lugar que está igual para descobrir o quanto a gente mudou.”
– Nelson Mandela
Olhar para trás pode ser um exercício doloroso, mas necessário para continuar nesse processo de aprendizagem que é viver a vida.
Mas, uma vez que é impossível resgatar o passado, olhar para trás não seria uma perda de tempo?
Sim, mas essa premissa não contradiz em nada o argumento inicial. Vejamos:
Mudanças
A vida em si é uma continuidade e, apesar dos nossos desejos, não temos o mecanismo de reiniciar a partir do zero ou dos melhores momentos vividos.
Realmente, a ideia de dar continuidade a momentos felizes tem levado muitas pessoas a buscar antigos romances na expectativa de sentir a mesma felicidade ou a mesma paixão.
O fato é que, a cada aprendizagem, somos transformados de alguma maneira.
O amor que sentimos no passado jamais será o mesmo amor, não terá a mesma intensidade – o que pode ser para o bem ou para o mal.
Alguns ficam frustrados ao perceberem que retornar ao primeiro amor não significou necessariamente voltar ao amor primeiro.
Essa mesma ideia também tem levado muitos a retornarem às suas cidades de origem, apenas para perceberem que tudo mudou.
A cidade não é mais a mesma. A pessoa não é mais a mesma!
As buscas, os sentimentos, a materialidade… mudam!
“Encarando o passado”
Então, por que olhar para trás pode ser útil?
Visitar o passado pode nos ajudar a ter uma perspectiva mais madura dos acertos e desacertos e a entender que as coisas mudaram.
Trazer o passado de volta pode ser doloroso.
Lembrar de constrangimentos, frustrações e primeiros amores pode causar desconforto.
Paixões doentias e acidentes, podem até gerar a sensação de que se viveu do modo errado, que não valeu a pena.
Resgatar essas memórias pode ser essencial para lidar com emoções reprimidas ao longo do tempo. A ajuda profissional de um psicólogo pode ser útil.
Alguns temem encarar as memórias, pois lamentam não terem encontrado as melhores palavras ou a melhor ação para aquele momento.
Convenhamos, a sensação de frustração parece ser multiplicada pelos anos em que foram escondidas.
Mas, mesmo assim, por que olhar para trás? Para que revisitar antigas memórias e situações?
Um dos principais motivos é aprender a ter outra perspectiva: a aceitação.
“Aqueles que não conseguem lembrar o passado estão condenados a repeti-lo.” – George Santayana
Aprender que frustrações e mal-entendidos fazem parte do processo de viver e que, mesmo nos tempos de desacertos, também se experimentou momentos de felicidade. E que esses momentos também não devem ser esquecidos!
Esse novo modo de ver pode ser essencial para o entendimento de que o passado é inevitável, que o futuro ainda está em curso e que, se não lidarmos com o passado, não saberemos abraçar o futuro.
Vencer o medo de encarar o passado não é apenas uma necessidade, mas um passo essencial para construir um futuro mais leve e pleno.
“A vida só pode ser compreendida olhando para trás, mas deve ser vivida olhando para frente.” – Søren Kierkegaard
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O escritor sempre coloca um pouco de si em suas histórias, sejam experiências pessoais ou no modo como histórias de terceiros influenciaram sua vida.
Neste post faremos uma breve análise do conto A Pequena Sereia, original de 1837, adaptado posteriormente para o cinema pelos estúdios Walt Disney.
A adaptação de A Pequena Sereia pela Disney, lançada em 1989, marcou um ponto de virada significativo na indústria da animação. Este filme não apenas revitalizou a animação como forma de entretenimento, mas também se estabeleceu como um ícone cultural duradouro.
As músicas e personagens apresentados na obra da Disney tornaram-se parte integrante da cultura popular, evidenciando a habilidade da empresa em criar narrativas que ressoam com o público de todas as idades.
A história de Ariel, com sua busca por identidade e amor verdadeiro, representa temas universais que continuam a atrair novas gerações, estabelecendo um profundo impacto na imaginação coletiva.
Como as experiências do autor e do adaptador influenciaram o modo como contam a mesma história? Vejamos.
Resumo da versão Disney de A Pequena Sereia
Na versão dos Estúdios Disney, o amor romântico é o foco central da narrativa.
A Pequena Sereia é uma adaptação captura a essência de uma história encantadora, centrada na jovem sereia Ariel.
Desde o início, Ariel é apresentada como uma jovem curiosa e sonhadora, insatisfeita com sua vida no reino subaquático de Atlântida. Ela anseia por entender o mundo humano e sonha em se tornar parte dele, uma ambição que a leva a explorar os destroços de navios naufragados.
Esse desejo de liberdade e descoberta é um aspecto central da narrativa, pois representa a busca por identidade e pertencimento, temas universais que ressoam com muitos.
O amor floresce quando Ariel vê e salva de um naufrágio, o príncipe Eric, um humano que se torna a razão pela qual ela deseja transformar-se.
Em um momento decisivo, Ariel faz um pacto com a maligna bruxa do mar, Úrsula.
Sacrifícios e Final Feliz
Este acordo, que a transforma em humana por um período limitado, também a priva de sua voz, simbolizando as dificuldades e sacrifícios que podem surgir na busca pelos sonhos.
Este elemento da história oferece uma visão leve, mas profunda, sobre os desafios do amor verdadeiro e a importância da comunicação.
À medida que a narrativa se desenrola, Ariel é acompanhada por uma variedade de amigos leais, incluindo o peixe Linguado e o crustáceo Sebastião, que não apenas oferecem suporte, mas também humor à trama.
Os encontros e desencontros com Úrsula introduzem tensão à história, mas a amizade e o amor triunfam.
Em última análise, a versão da Disney culmina em uma resolução feliz, onde Ariel consegue conquistar seu sonho de ser humana, sublinhando que o amor e a amizade superam todos os obstáculos.
Essa adaptação oferece um toque otimista e esperançoso, deixando uma mensagem positiva para o público de todas as idades.
Resumo da versão original de A Pequena Sereia
Por outro lado, a versão original de Hans Christian Andersen, publicada em 1837, oferece uma abordagem mais sombria e filosófica da história.
A sereia, em sua busca pela alma e pela humanização, confronta questões existenciais profundas, como a perda e a dor que podem acompanhar o amor.
A versão original do conto A Pequena Sereia, escrita por Hans Christian Andersen, narra a história de uma jovem sereia que habita as profundas águas do oceano.
Desde pequena, a sereia é fascinada pelo mundo humano, em especial por um príncipe que avista e salva da morte, afogamento devido por causa do naufrágio, no dia de sua festa de aniversário.
A atração e o amor que sente por ele a levam a tomar uma decisão drástica, buscando a transformação em humana.
Para isso, ela faz um pacto com a temida bruxa do mar, que oferece pernas em troca de sua cauda, mas a um preço doloroso: a sereia deve abrir mão de sua voz.
O amor que a sereia nutre pelo príncipe é imenso, mas suas escolhas são repletas de sacrifícios.
O sacerifício e a perda
Adaptar-se ao mundo dos humanos traz-lhe não apenas a dor de não poder se expressar verbalmente, mas também a dor física, pois cada passo que dá é como caminhar sobre lâminas afiadas.
Ao longo da narrativa, Andersen explora a dualidade da busca pelo amor verdadeiro e os sacrifícios que isso demanda, revelando uma realidade onde a felicidade nem sempre é garantida.
Apesar de seus esforços para conquistar o coração do príncipe, ele acaba se apaixonando por outra mulher, levando a sereia a um estado de desespero.
O desfecho se torna ainda mais sombrio quando, ao perceber que seu amor é inalcançável, ela se depara com uma escolha final:
A bruxa do mar sugere que para recuperar a sua vida ela deve matar o príncipe e deixar seu sangue pingar aos seus pés para que ela volte a ser sereia ou transformar-se em espuma do mar em vez de se tornar uma mulher sem amor.
Ao ver a alegria do Príncipe com a amada, ela escolhe se transformar em espuma do mar.
Este final trágico destaca o preço elevado que pode ser exigido na busca por amor e aceitação, um tema recorrente na obra de Andersen que ressoa profundamente até os dias de hoje.
Comparação dos temas principais
De que modo cada autor inseriu um pouco de si, em especial na escrita e na adaptação deste clássico?
Enquanto a adaptação da Disney foca na busca do amor e na transformação pessoal, o conto de Andersen trata da dor e do sacrifício.
Uma análise da biografia dos personagens reais Walt Disney e Hans Christian Andersen nos ajuda a entender essa questão.
De acordo com o livro O Lado Sombrio dos Contos de Fadas, Walt Disney teve uma infância difícil, trabalhando desde menino para ajudar o pai nas despesas.
Desde muito jovem, acordava ainda de madrugada para entregar jornais, enfrentando frio intenso e longas jornadas.
Às vezes, ao encontrar brinquedos na frente das casas onde fazia uma entrega, brincava por um curto período, temendo ser pego ou denunciado por “trapacear durante o trabalho”.
Percebeu desde menino o quanto os sonhos de finais felizes permeiam a trajetória humana.
Transformou seus sonhos e desejos da infância em um projeto onde as crianças poderiam brincar e ser felizes. Criou “O Maravilhoso mundo de Walt Disney”, onde a tristeza não deveria existir (ao menos por um longo tempo!).
Hans Christian Andersen
A vida de Andersen foi solitária e marcada por amores não correspondidos.
De família pobre, conseguiu sucesso por receber apoio de alguém que reconhecia seus talentos, mas jamais se sentiu plenamente aceito na alta sociedade. Algumas de suas obras, como O Patinho Feio e A Roupa Nova do Imperador, tocam nesse tema.
Ele também escreveu A Rainha da Neve, hoje conhecido como Frozen, além de outros belos contos.
Sua vida pessoal foi solitária, marcada por amores não correspondidos.
Ele nunca se casou e há indícios de que viveu conflitos internos em relação à sua sexualidade.
Suas cartas e diários revelam paixões tanto por mulheres quanto por homens, embora nunca tenha tido um relacionamento confirmado.
Suas paixões, conflitos e perdas se refletem no modo como escreveu o conto A Pequena Sereia.
A história de A Pequena Sereia, tanto na versão da Disney quanto na de Hans Christian Andersen, é apenas um exemplo de como os autores inserem um pouco de suas experiências em suas obras.
Essas diferenças temáticas destacam como as narrativas de amor podem variar entre culturas e épocas.
A adaptação da Disney prioriza uma visão otimista, enquanto Andersen nos convida a considerar os aspectos mais sombrios da humanização.
Que tal, na próxima vez que ler um livro, uma poesia ou escutar uma música, tentar imaginar os sentimentos e as histórias que se escondem no ritmo e nas palavras?
O ser humano tem esse incrível poder de se expressar e de entender além das palavras.
Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida
Meus olhos andam cegos de te ver !
Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida !
Não vejo nada assim enlouquecida …
Passo no mundo, meu Amor, a ler
No misterioso livro do teu ser
A mesma história tantas vezes lida !
“Tudo no mundo é frágil, tudo passa …”
Quando me dizem isto, toda a graça
Duma boca divina fala em mim !
E, olhos postos em ti, digo de rastros :
“Ah ! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus : Princípio e Fim ! …”
Florbela Espanca
Comentando o Soneto
A Expressão do Amor Absoluto
Esse soneto de Florbela Espanca é uma das mais belas expressões do amor absoluto e arrebatador. O poema é um exemplo clássico da poesia ultrarromântica, onde o eu lírico se entrega completamente à figura amada, transcendendo qualquer limite racional. Desde o primeiro verso, percebe-se a intensidade dessa entrega:
“Minh’alma, de sonhar-te, anda perdida”
O amor não é apenas um sentimento, mas uma totalidade que domina a existência da poeta. A visão do ser amado é tão constante que a realidade ao redor se dissolve – os olhos ficam “cegos de te ver”.
A Fascinação e a Efemeridade
Na segunda estrofe, Florbela reforça essa ideia ao comparar a leitura do amado a um livro misterioso, cujo conteúdo é sempre o mesmo, mas nunca deixa de ser fascinante. O terceiro quarteto introduz um contraponto interessante: a noção de efemeridade. O mundo é passageiro, tudo se desfaz, mas a voz interior da poeta nega essa transitoriedade com uma fé inabalável no amor.
Esse soneto é um exemplo marcante da poética de Florbela Espanca, caracterizada pelo excesso emocional, pela paixão intensa e por uma sensibilidade à flor da pele. Sua poesia expressa uma entrega absoluta ao amor, quase como uma fusão entre o eu lírico e a figura amada. Florbela não apenas ama, mas se dissolve nesse amor, tornando-o o próprio sentido de sua existência.
A busca pela completude é evidente em versos como:
“Não és sequer a razão do meu viver,
Pois que tu és já toda a minha vida!”
Aqui, o amor deixa de ser uma parte da vida e passa a ser a vida inteira.
Versos Finais
E então vem o impacto dos versos finais:
“Ah! Podem voar mundos, morrer astros,
Que tu és como Deus: Princípio e Fim!”
O amor alcança sua máxima elevação: ele é eterno, absoluto e divino. A hipérbole e a comparação com Deus enfatizam o fanatismo do título – um amor que transcende até mesmo as leis do tempo e do universo. A última estrofe reforça essa busca pelo absoluto, recusando a efemeridade das coisas e se refugiando na ideia de um amor que transcende o tempo e a realidade. Isso reflete bem sua intensidade emocional e espiritual, tanto na poesia quanto na vida.
O Amor como Refúgio e Frustração
Analisando a biografia da autora, percebe-se que ela idealizava o amor como um refúgio para suas dores, um porto seguro para suas feridas emocionais. No entanto, sua intensidade e exigência emocional tornavam essa busca frustrante. Para ela, o amor deveria ser algo divino, eterno e absoluto, como expressa em Fanatismo, mas a realidade raramente correspondia a essa visão.
Isso também explica a melancolia presente em seus versos: mesmo quando o amor acontece, ele nunca é suficiente para preencher o vazio da alma. Talvez o maior amor de Florbela tenha sido justamente esse amor inatingível, que ela alimentava mais na imaginação do que na vida real.
Resumo biográfico
Florbela Espanca (1894–1930) foi uma das maiores poetisas portuguesas, reconhecida por sua escrita intensa e emocional. Sua obra, permeada por temas como amor, sofrimento, solidão e busca pelo absoluto, reflete uma vida pessoal marcada por desafios e crises emocionais profundas.
Nascida em 8 de dezembro de 1894, em Vila Viçosa, no Alentejo, era filha de Antónia da Conceição Lobo e do republicano João Maria Espanca. Fruto de uma relação extraconjugal, foi reconhecida oficialmente pelo pai apenas após a morte da mãe, que faleceu quando Florbela tinha 14 anos. Criada na casa paterna, desde cedo demonstrou talento literário, assinando seus primeiros textos como Flor d’Alma da Conceição e escrevendo poemas dedicados ao pai e ao irmão Apeles.
A arte, o amor, o resumo
Florbela Espanca teve uma vida marcada por intensas dores emocionais, perdas e desilusões, que contribuíram para um fim trágico.
Ela foi uma das primeiras mulheres a frequentar a universidade em Portugal, ingressando na Faculdade de Direito da Universidade de Lisboa em 1917. Antes disso, estudou no Liceu Nacional de Évora, onde teve contato com autores como Balzac, Dumas e Camilo Castelo Branco. Sua carreira literária iniciou-se com Livro de Mágoas (1919), seguido por Livro de Soror Saudade (1923), obras que se destacam pelo lirismo intenso, paixão e melancolia. Influenciada pelo ultrarromantismo e simbolismo, sua poesia carrega uma sensibilidade exacerbada, erotismo e uma busca constante pelo amor transcendental.
Sua vida amorosa foi instável, com três casamentos fracassados. Em 1927, sofreu um dos maiores golpes de sua vida: a morte de seu irmão Apeles em um acidente de avião. A perda a mergulhou em profunda tristeza e inspirou As Máscaras do Destino, publicado postumamente.
Problemas de saúde e crises existenciais
Nos últimos anos de sua vida, Florbela também sofria de problemas de saúde, incluindo doenças nervosas e psicológicas, agravadas por uma série de crises existenciais. Em 1930, após várias tentativas de suicídio, acabou falecendo no dia do seu aniversário, 8 de dezembro, possivelmente por overdose de barbitúricos.
Sua morte precoce reforçou a aura trágica que a cercava, mas sua obra continua a emocionar gerações. Seu soneto Fanatismo ilustra bem sua entrega ao amor idealizado:
“Não és sequer a razão do meu viver, Pois que tu és já toda a minha vida!”
Essa devoção absoluta revela uma mulher que ansiava por plenitude emocional, mas se via constantemente frustrada pela realidade.
A sua arte continua viva, e sua poesia segue encantando e emocionando gerações. O soneto Fanatismo fez grande sucesso no Brasil ao ser interpretado musicalmente pelo cantor cearense Raimundo Fagner.
A pobre menina de pouco mais de cinco anos de idade tinha tantos sonhos quanto as outras meninas de sua idade. Não queria muito, queria apenas uma dessas bonecas que via nas propagandas na velha televisão que repousava no lado esquerdo da casinha de piso de chão batido, tanto mais frio no inverno.
Seus olhinhos brilhavam ao ouvir, nesses programas de TV que ajudavam os pobres, que a vida podia mudar, mas sua vida não parecia ter outras perspectivas. Sua mãe, solitária e doente, não podia fazer muita coisa, nem dar muita coisa, e a pobre menina ajudava nas tarefas da casa: lavando, passando e, às vezes, cozinhando quando a mãe se enfraquecia.
Era triste ver a infância fugir e o brilho nos olhos da menina se apagar. Mas algo mudaria.
Numa dessas histórias que se assemelham a contos de fadas, alguém escreveu para um desses canais que “ajudam” os carentes. E, vestida com sua melhor roupa, ela se apresentou naquele programa, enquanto a suave música de fundo trazia emoção e lágrimas às pessoas que agora também conheciam sua história.
O apresentador, de voz compassiva, contava a história, repetindo os trechos mais marcantes… e, de casa, os telespectadores também compartilhavam o mesmo choro. Segurando ternamente as mãos da menina, o apresentador pediu uma pausa. A audiência estava nas nuvens, e o apresentador, com olhos marejados, chamava o intervalo e, consequentemente, os comerciais…
E, enquanto o canal faturava com os patrocinadores, a cena no auditório não era tão terna nem tão triste…
No início do intervalo, o apresentador soltou friamente a mão da pobre menina, correndo feliz para checar com os auxiliares o sucesso daquele programa. Feliz por saber que estava em primeiro lugar…
Enquanto isso, com a mesma solidão e desilusão do dia a dia, sentada nos degraus do cenário, a menininha não entendia absolutamente nada… Não percebia que estava sendo usada como parte do jogo.
O Menino do Pintinho Piu
A história acima é baseada em fatos, mas uma história que ilustra bem tais programas de TV é a do Menino do Pintinho Piu.
O menino gravou um vídeo despretensioso dublando a música Pintinho Piu. O vídeo viralizou! Tornou-se a sensação da internet. E, por fim, foi descoberto por um desses programas populares.
O apresentador, feliz com a audiência, prometeu que daria suporte à carreira daquele menino. Os telespectadores elogiavam o apresentador: — “Viu como ele se importa com as pessoas?”
Os pais, entusiasmados com a possibilidade de sucesso do filho, venderam todos os bens para investir no sonho e bancar a gravação e divulgação do disco do menino.
Nota: o menino não era um cantor. Não havia possibilidade de dar certo!
Mas o apresentador estava tão entusiasmado…
Pobres pais… Não imaginavam que seriam esquecidos por todos, inclusive pelo apresentador, assim que o programa acabasse — com picos elevadíssimos de audiência.
Mais pobres agora, tentariam voltar ao mesmo programa, com o mesmo apresentador que faria a mesma cena, capitalizando sobre a miséria de uma família que vendeu tudo que tinha para investir na carreira do filho.
As Lágrimas da TV
São histórias tristes, é verdade! Mas a verdade maior é que as pessoas gostam de acreditar em lágrimas de TV. Gostam de acreditar que as lágrimas nos olhos de um apresentador que está preocupado com faturamentos, contratos, carreiras, com tudo — menos com a vida da pessoa no meio do palco.
As pessoas gostam de ser enganadas…
O mundo real é chato. A vida real é muito chata!
Enquanto as câmeras filmam, as lágrimas parecem reais. Mas, quando se apagam, a realidade volta a ser o que sempre foi: cruel para os que vivem dela e lucrativa para os que a exploram.
O que é fazer valer um sonho quando todos os sinais te apontam o mais fácil, que é desistir?
Às vezes, insistir num objetivo é saber insistir, apesar das frustrações. Por exemplo, como se sentem poetas, bons compositores e arranjadores quando percebem a qualidade da música atual e as mensagens nas letras (quando há alguma mensagem!)?
Não me acusem de reacionário, moralista ou seja lá o que for, com aquela frase batida de que tudo é questão de gosto.
É verdade que alguém sempre reclamará da decadência musical ao longo das décadas, mas isso também pode significar que os estilos coexistem e que prevalecem aquilo com que se identifica a sociedade atual. Por isso, ainda exerço o meu direito de gostar daquelas canções que chocam pela beleza, pela harmonia entre melodia e letra…
Como se molda o gosto musical?
A Música como Produto
O fato é que a maior exposição musical é dada àquelas canções com potencial de vendas, mesmo que seja por um curto período de tempo e que serão substituídas por canções bem parecidas, com o mesmo objetivo de vendas, em que a música é apenas um mero produto a ser usado e descartado. Ninguém sentirá falta quando o sucesso passar.
A música não tem sido encarada como arte a se eternizar; reduziu-se a um produto, um mero produto.
E Quanto às Obras-Primas?
Você talvez pense: “Ah! O Spotify, o Deezer, o YouTube e outros meios estão aí. A pessoa pode procurar o que quiser!” É verdade, mas você sabia que boa parte do que você gosta foi apresentado por alguém ou por um meio de comunicação?
Isso significa que, se as pessoas forem expostas a apenas um ou dois estilos de música, de melodias simples, terão dificuldades em se interessar por arranjos e letras mais complexas.
A exposição a vários estilos musicais seria essencial para ajudar na formação artística e cultural do indivíduo. Mas, atualmente, isso não acontece.
O “Jabá Turbinado” e o “Sucesso”
Hoje vivemos o “jabá turbinado”, que funciona de maneira sutil, mas extremamente eficaz.
Empresários, especialmente do campo do agro/sertanejo, não apenas pagam mais para terem seus produtos expostos, compram também estações de rádio, que tocarão exaustivamente seus produtos. A estratégia é composta por passos bem definidos:
Repetição Exaustiva: As músicas são tocadas repetidamente nas rádios compradas ou contratadas, garantindo que fiquem na cabeça do público.
Construção de Empatia: Comentários sobre a vida pessoal dos artistas, muitas vezes elaborados estrategicamente, geram identificação e conexão emocional com o público.
Narrativa de Superação: Biografias que destacam a saga do “herói humilde que alcançou o sucesso” são cuidadosamente construídas para comover e inspirar.
Marketing Integrado: Notícias, fofocas e até intervalos entre as canções são utilizados para manter vivo o interesse do público.
Outros estilos musicais não têm espaço nessas emissoras, porque o objetivo principal é vender o produto. Em especial, em pequenas cidades, presume-se que o público seja menos informado e, portanto, mais suscetível à manipulação.
A consequência? Pressões e negociatas surgem.
Cultura e Política
A população dessas cidades, ao saber que um astro visitou uma cidade vizinha, passa a pressionar o administrador público para trazer o espetáculo. E, muitas vezes, o administrador cede, gastando mais do que o orçamento mensal destinado à saúde ou educação para atender à demanda.
Shows patrocinados por verbas públicas frequentemente estão associados a mau uso de recursos, isso quando não há desvios. Alguns argumentam que “não usamos a Lei Rouanet”, mas é preciso esclarecer:
A Lei Rouanet foi criada para incentivar o financiamento da arte com recursos privados, permitindo deduções no imposto de renda dos patrocinadores, sem utilizar diretamente dinheiro público.
O “Sonho” de Comunicar
Um amigo meu, desde jovem, sonhava em ter uma estação de rádio para promover artistas locais e tocar canções de todas as épocas. Durante um tempo, ele investiu em um serviço de alto-falantes, o “Som da Cidade”, que trazia uma programação eclética com espaço para todos os estilos musicais, notícias locais e até transmissões das sessões da Câmara Municipal.
Com o sucesso do Som da Cidade, ele decidiu investir numa rádio. O início foi promissor, mas os problemas não demoraram a surgir.
O clima político da cidade era acirrado. Ao apontar falhas da administração pública, foi agredido fisicamente em duas ocasiões, em administrações diferentes. As paixões pessoais estavam acima dos interesses públicos e culturais.
O comércio local não se interessava em patrocinar a rádio, e os administradores públicos temiam associar-se a quem poderia denunciá-los. Além disso, o custo com direitos autorais (ECAD) era desanimador para quem desejava iniciar uma pequena emissora.
Documentos, contas e processos descansavam sobre a mesa do pequeno escritório que ele montou com recursos próprios, mas o sonho de erguer novamente a rádio nunca se concretizou. Ele gostava de ter seu nome ligado à comunicação.
Nos últimos dias, ainda sonhava em lançar um livro contando toda a sua batalha, desde as dificuldades em manter uma rádio com identidade própria aos seus desafios na construção desse sonho.
Seria um ótimo livro!
Reflexões
Desde jovem, sempre sonhei em escrever memórias, histórias, poemas, músicas… o que me viesse à cabeça. Hoje, sem o meu amigo, me pergunto: será que vale a pena insistir nesse sonho, quando o caminho mais sábio parece ser desistir?
Falar de música, poesias, histórias…arte! Sei que tudo mudará, certamente, mas em que direção?
Haverá algum dia espaço para se conversar sobre notícias, poesias, histórias e músicas longe das paixões doentias que apenas dividem e afastam? Haverá espaço para a diversidade ou apenas o poder financeiro fará da pessoas fantoches, ditando o que fazer e ouvir?
Um dia, retornando do trabalho, deparei-me com o que costumam chamar de pichações num grande muro que separa o bairro mais distante do caminho de onde moro. Ao olhar com atenção, percebi que o que pareciam ser borrões transformava-se na face de um escritor quando eu atingia certa distância, mas desaparecia poucos passos à frente.
Confesso que não sei se o efeito era intencional ou mero acidente, mas aquilo me fez refletir sobre o que é a arte. Esse é o dom da arte: fazer pensar, refletir!
Não sei quem foi o autor daquela imagem, nem se ele desistiu depois daquela arte.
Assim como ele, escrevo apenas por escrever. Não sei se alguém, na distância do tempo, vai parar, olhar ou mesmo se preocupar em entender o que tentei dizer.
Desejo apenas que alguém veja minhas palavras como vi aquela imagem no muro: da distância correta, ganhando sentido e, talvez, revivendo minhas histórias.
Quando penso na arte e na cultura em geral, frequentemente desejo desistir. É, realmente, caminhar sozinho, a um horizonte muito mais fácil.
Você já percebeu que passamos uma boa parte de nosso tempo imaginando, planejando, carregando sonhos que alimentamos por toda a vida? Isso é mais que natural…
Não se trata de fugir da realidade, a nossa mente gosta de viajar.
Às vezes, nos pegamos sozinhos e, de repente, percebemos que a nossa mente nos levou a tempos e lugares incríveis. Visitamos pessoas que estão escondidas nos cantinhos mais ocultos da memória e, às vezes, refazemos velhas experiências.
A difícil tarefa de lidar com um mundo onde tudo se tornou descartável, desde pessoas até a arte, é desgastante. Por isso, as mentes inquietas buscam refúgio em outros horizontes…
Não se preocupe, você não está louco e nem está enlouquecendo… Permita-se sonhar um pouco!
“Ah! Mas enquanto eu ficar sonhando, o tempo passa. E tempo é dinheiro!”, você talvez pense.
Ninguém te disse para passar o dia inteiro sonhando… Disse? (Risos)
Novos planos
Então, vamos lá… Permita-se realizar alguns sonhos, tais como aprender a tocar algum instrumento, cantar, escrever poesias, ler um pouco mais, ou aproveitar a sua família.
Está bem… Mas, se nada disso soar um pouco atraente aos seus ouvidos, pergunte-se: “O que realmente me atrai?”
Se sua resposta não incluir a alegria de quem te ama ou de quem você ama, talvez seja a hora de repensar. E, se nada disso for importante para você, o mundo não vai mudar — vai continuar exatamente o mesmo.
Pois as pessoas não costumam pensar na sociedade como um todo; pensam apenas em si mesmas (a família é pretexto!).
Se a sua resposta for diferente, você não é um mero sonhador. É um legítimo ser humano!
Então, permita-se sonhar, pois é a imaginação que nos ajuda a criar coisas novas e encontrar uma saída. Ainda é tempo:
De repente, voltei a ser o assunto principal nas conversas…
Estava em paz, no meu cantinho do universo, e lá vem vocês com um tal de “apareceram lá em New Jersey, Massachusetts, Connecticut, Pensilvânia, Virgínia e até lá no Pará”.
Vocês acham que a minha vida é de viagens eternas?
Desafios Terráqueos e a Realidade Alien
Tanta estrela por aí… e eu vou cair na tolice de entrar num planeta onde os seres só pensam em dominar os mais fracos e acabar com todos os recursos?
Veja só, dia desses inventei de alugar uma casa em Londres, estava disfarçado. Lá os preços estão os três olhos da cara… desculpe, são apenas dois!
É que por lá “os mercados” (vocês adoram essa expressão por aqui), o nome que se dá às poderosas instituições financeiras e comerciais, compraram tudo, e são eles que determinam o valor do aluguel de imóveis. E sabe no que resultou?
O preço subiu tanto, que acredito que sou o primeiro alien caloteiro “das galáxias”! Tive que sair antes de ver a polícia chegar…
Eu tenho certeza de que esses malditos têm profundo interesse em perpetuar a pobreza e as diferenças sociais. A lógica é: quanto mais terráqueos carentes, maior a concorrência por trabalho.
E, quando a busca é maior que a oferta, o valor cai…neste caso, a mão de obra fica baratinha…
Mão de obra barata também é uma forma de escravizar (o povo daqui não sabe!).
Veja você, enquanto isso, aqui do outro lado vejo países em guerra, outros massacrando seus vizinhos… Lá no Brasil, um tal de “orçamento secreto”, computadores emprestados a ONGs por mais de R$ 30 mil a unidade… da última vez que estive lá, eu podia comprar um por uns 2 mil.
Reflexões de um Alienígena
Fui esperar e olha o quanto inflacionou.
Lá também “os mercados” querem matar os pobres…
Veja você, um país com orçamento secreto, morte ficta, emenda PIX, pensão para filhas de militares — está pressionando o governo a cortar “benefícios” dos mais pobres.
Por meio de especulação, estão tentando desestabilizar o governo eleito.
Sinceramente… não consigo falar de tudo!
Aí, de repente, alguns engraçadinhos resolvem brincar com seus drones, e vocês começam a fazer piadinhas a meu respeito! Vocês não têm nada mais interessante pra pensar?
Por exemplo… vocês não fazem pesquisas meteorológicas? Fotos panorâmicas? Espionagem?
Por que tudo tem que ser… o ET aqui, o ET acolá?
Enquanto vocês olham para o céu, as coisas acontecem aqui embaixo!
Vão continuar roubando, matando, escravizando… distraindo a sua atenção.
Portanto, mantenha o foco em seus problemas — resolva-os primeiro!
Deixe-me voltar à minha nave-mãe… é hora dos comprimidos para dormir!
Motoristas experientes costumam agir automaticamente diante de mudanças de sinal ou sinais de perigo nas rodovias.
Reduzir a velocidade ou mudar a direção pode ser tudo o que separa a segurança do risco.
Às vezes, tomar um caminho diferente é exatamente o que se precisa para chegar ao destino.
Você talvez se pergunte: mudar de direção pode atrasar a chegada ao destino. Compensaria tal sacrifício?
Isso depende das suas prioridades.
As prioridades e o verdadeiro sucesso
Não é incomum ver pessoas sacrificando família, amizades e até mesmo a própria moral para alcançar um objetivo mais rápido.
Mas, o que é o sucesso se, para alcançá-lo, abrimos mão das coisas que dão sentido à vida?
É verdade que algumas pessoas não se importam com quem deixaram para trás. Talvez nunca tenham tido apego a amizades ou sentimentos. Não as criticamos.
Por outro lado, se você não pensa assim, fique tranquilo: você é normal.
Sucesso não se mede pelo acúmulo de riquezas ou pela fama. O verdadeiro sucesso está na satisfação de fazer o que se gosta.
Carregar um título ou alcançar um status não significa necessariamente ser bem-sucedido.
Às vezes, abrir mão de certos planos e mudar de direção é necessário para não deixar para trás aquelas pessoas que queremos ao nosso lado por toda a vida.
Por elas, estamos dispostos a ajustar a rota — afinal, o que pode ser mais valioso do que compartilhar o sucesso com quem amamos?
Esteja atento: no futuro, o resumo da viagem será o mais importante. E as viagens são sempre melhores quando não estamos sozinhos.